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A Hiena e a TartarugaA Tartaruga estava aflita porque se sentia perseguida pelo fogo do capim que estava a arder. Nisto passa a Hiena, e a Tartaruga pede-lhe:
- Amiga, tenha pena de mim, porque se o fogo me apanhar não sei o que hei-de fazer e não posso andar depressa. A Hiena riu-se e foi-se embora. Passado puco tempo chega o leopardo e a Tartaruga apresenta-lhe o mesmo pedido. O Leopardo agarra na Tartaruga, coloca-a no galho duma árvore, e depois de fogo passar veio tirá-la para o chão. - Agora deixa-me agradecer-te pela bondade que tiveste comigo. A Tartaruga, com as suas mãos e misturando a cinza com um pouco de água, aproximou-se do Leopardo e disse: - Tu tens bom coração e também o teu corpo deve andar bonito. Fez-lhe umas malhas negras em todo o corpo e este ficou bonito. A Hiena encontrou o Leopardo e, admirada, perguntou: - Amigo, onde encontraste esse bonito casaco? O leopardo respondeu-lhe: - Foi a minha amiga Tartaruga que mo deu. A Hiena foi então ter com a Tartaruga e pediu-lhe que lhe desse um casaco igual. Como antigamente o Leopardo e a Hiena eram da mesma cor, a Tartaruga começou a dizer: - Como tu és feia, também o teu casaco deve ser feio. Com a cinza fez-lhe riscos feios em todo o corpo e a Hiena saiu toda envergonhada. Conto tradicional africano
O Porco e o MilhafreO Porco e o Milhafre eram dois inseparáveis amigos. O porco invejava as asas do Milhafre e insistia contínuamente com o amigo para que lhe arranjasse umas iguais para voar também.
Conto tradicional africano Cata-vento de terramoto de Zhang HengNo período do Han do Leste, aconteceram abalos sísmicos frequentes em Luoyang, capital do país e nas suas proximidades. Foram registrados 33 terramotos entre o ano 89 e o ano 140, incluindo dois grandes terramotos no ano 119, que atingiram mais de 10 distritos causando grandes perdas materiais e humanas. O imperador considerava os desastres naturais como castigo do “Céu” e aumentou os impostos à população para realizar grandiosas cerimónias rituais em homenagem ao imperador celestial. Zhang Heng, que dedicava-se aos estudos da astrologia, calendário e matemática, não acreditava nos boatos supersticiosos sobre os abalos sísmicos e achava que estes eram fenómenos da Natureza. E intensificou seus estudos. Zhang Heng observava e registrava todos os terramotos e analisava os seus motivos. Após vários anos de observação e teste, produziu em 132 um cata-vento de terramoto, o primeiro sismógrafo do mundo. O aparelho de Zhang Heng consistia em uma jarra de vinho feita de bronze, de cerca de um metro de diâmetro. Em torno da jarra havia oito cabeças de dragão, cada qual com uma bola. No chão, em torno da jarra, eram colocados oito sapos com as bocas abertas. Durante um tremor de terra, uma das bocas de dragão se abria e deixava cair a bola na boca do sapo. A localização do dragão que soltasse a bola indicava a direcção de onde provinha o tremor, e em seguida o aparelho se fechava automaticamente, para que nenhuma outra bola fosse solta; obtinha-se, então, uma indicação permanente. Em 133, ocorreu um terramoto em Luoyang. O cata-vento de terramotos previu com exactidão o tremor de terra. Nos quatro anos posteriores, houve outros três terramotos na região e todos foram registrados sem falta pelo aparelho de Zhang Heng. Um dia de Fevereiro de 138, Zhang Heng descobriu que o dragão do oeste deixou cair a bola na boca do sapo, mas ninguém sentiu o tremer da terra. Alguns eruditos, por isso, começaram a duvidar a exactidão do aparelho de Zhang Heng, dizendo que ele só podia fazer previsão dos tremores de terras das regiões próximas de Luoyang. Alguns dias depois, um enviado da província de Gansu, oeste do país, chegou à capital comunicando ao imperador a ocorrência de um terramoto na província. Nesse momento, todas as pessoas acreditaram nos estudos de Zhang Heng e no seu aparelho. A partir da época, a China começou a utilizar o aparelho para prever e registrar os terramotos Conto tradicional chinês As palavras cinzentas e as palavras cor-de-rosaUm dia, sem se saber muito bem porquê, tudo aconteceu de repente: as palavras cor-de-rosa desapareceram do planeta. O que são palavras cor-de-rosa? São palavras delicadas, como, Obrigado, Faça favor, Se não se importa , És tão importante para mim. Palavras tão doce que são como mel no coração. Seria obra do Mago Cinzento, que só gostava do salgado, do picante e do amargo? Não… Eram os homens que, vá lá saber-se porquê, preferiam as palavras picantes, amargas e salgadas. Naquela época, existiam na Terra lojas de palavras cor-de-rosa e lojas de palavras cinzentas. Os vendedores de palavras cor-de-rosa vendiam Amo-te, Penso em ti, Muito Obrigado , Se faz favor… Os vendedoras de palavras cinzentas vendiam sobretudo Cabeça de alho chocho , Não me chateies, Cala o A princípio, comprava-se muito mais palavras cor-de-rosa do que palavras cinzentas. Os vendedores de palavras cor-de-rosa faziam bons negócios, e um perfume doce envolvia a Terra. Os vendedores de palavras cinzentas passavam os dias à espera, porque só tinham clientes uma ou duas vezes por ano, por alturas de grandes zangas. No entanto, um dia, os homens puseram-se estranhamente a comprar palavras cinzentas. Havia uma crise de emprego, uma greve de corações. Os patrões compravam muitos Vá pregar a outra freguesia, Está bem arranjado, homem, Obrigado pelos seus serviços mas está despedido. Havia guerras entre famílias, divórcios, casais que já não se entendiam. Invejas entre irmãos, zangas… Comprava-se vários Já não gosto de ti, Acabou tudo. Nas lojas de palavras cor-de-rosa, muitos Obrigado, Por favor, Gosto de ti, ficavam por vender. –– Para o diabo com as palavras doces –– diziam os homens. –– São caras e não trazem nenhum benefício. Os vendedores de palavras cor-de-rosa, desolados, já não sabiam onde as armazenar. No entanto, algures no mundo, um rapazinho não queria habituar-se às palavras cinzentas. Talvez por, no seu bolso, ter ficado uma palavra cor-de-rosa meio gelada. "Eu", dizia Pedro, "não quero um mundo onde mais ninguém canta; onde não se diz bom dia, nem obrigado, onde há sempre tanto frio. Vou ver se encontro o Sol." O rapazinho caminhou durante muito tempo, escalou colinas geladas, pequenas e grandes montanhas, vulcões extintos. Por fim, ao cabo de meses e meses de árdua caminhada, chegou exausto e transido à casa das nuvens. –– Toc, toc –– bateu. –– Venho à procura do Sol. –– Oh, oh! –– exclamou a nuvem-chefe, que tinha tomado posse do céu cinzento. –– Olhem só para isto… Um fedelho ridículo que vem à procura do senhor Sol! O Sol não aparece a ninguém! Desde que as palavras cinzentas tomaram o poder, somos nós, as nuvens pardacentas, que somos os chefes. Dito isto, virou as costas e fechou-lhe a porta na cara. O rapazinho sentou-se, confuso. Como responder? Não trazia no bolso uma única palavra cinzenta. Então, começou a chorar. A nuvem olhou para ele surpreendida: já há muito tempo que não via ninguém chorar! Naquele universo glacial, todos os olhos estavam gelados, todos os corações estavam frios. –– Pára com isso imediatamente! –– gemeu a nuvem. –– Se não, vou fazer cair um aguaceiro. (Porque as nuvens têm habitualmente a lágrima ao canto do olho.) Finalmente comovida, tomou, lá no íntimo, a decisão de o ajudar. –– Olha –– disse-lhe. –– Aquela bolinha amarela ali em baixo é o Sol. Pedro abriu os olhos e viu de facto uma bola de bilhar perdida na imensidão do azul: era o Sol, que estava a desaparecer por causa dos maus-tratos. Já no limite das forças, o rapazinho caminhou em direcção da pequena bola amarela. –– Bom dia –– cumprimentou. –– Vim buscar-te. Tudo se tornou cinzento na Terra. Temos frio, sentimo-nos mal. Nunca nos rimos, nunca dizemos palavras delicadas. Precisas de voltar. E o Sol e o rapazinho começaram ambos a suspirar, pensando naquela "época cor-de-rosa". –– Precisas de voltar –– insistiu Pedro. –– Vou, a título de experiência –– resmungou o Sol. –– Mas atira primeiro para a Terra estas palavras cor-de-rosa. Assim, o meu regresso será mais agradável. O Sol deu ao menino um conjunto de palavras cor-de-rosa: Por favor, É simpático da tua parte, Muito obrigado , Gosto muito de ti, Amor da minha vida, Se não se importa, etc. O rapazinho meteu-as nos bolsos, na boca, no boné, nas meias, em todo o lado. As que ele conseguisse levar. Regressou à Terra e distribuiu-as ao acaso. As lojas cor-de-rosa fechavam umas atrás das outras. Passa-se, Fechado por morte do proprietário, Liquidação total, Quinze palavras cor-de-rosa pelo preço de uma. Mas, mesmo a preços módicos, elas não atraíam ninguém. As lojas de palavras cinzentas, essas sim, prosperavam. Porque, e isso é bem conhecido, as palavras feias são contagiosas. Se no recreio te lembrares de lançar uma, receberás dez em troca! Abriram-se mesmo lojas especializadas em palavras feias, risos grosseiros, insultos horríveis. E os vendedores cinzentos trabalhavam dia e noite para descobrirem jóias raras, as palavras mais horríveis e mais maldosas! Como receavam ficar sem provisões, como costuma acontecer em tempo de guerra, as pessoas começaram a fazer conservas de palavras cinzentas. Congelaram-nas às dúzias, empilharam-nas nos armários da cozinha, nos guarda-fatos, debaixo das camas. E, upa, ao menor atrito, ao mais pequeno gracejo, à mais insignificante discussão, ia-se à reserva: Cala o bico, Vai ver se chove, És um atraso de vida, Ó gordefas, e assim por adiante! Os aniversários tinham lugar no meio dos piores insultos. Cantarolava-se Infeliz aniversário, infeliz aniversário, lançando-se uma bomba de palavras feias no meio da festa. Entre os adultos, para se festejar a passagem do ano, comia-se as passas e bebia-se sumo de peúgas pretas, no meio de gracejos do género: –– Desejo-te um ano péssimo… e, principalmente, muito pouca saúde! E, quando se abriam as prendas, era um concerto de gemidos: –– Que feio! Como é que tiveste uma ideia tão má? É, de facto, o presente que eu mais receava. Antes das aulas, as crianças corriam para as lojas cinzentas e enchiam os bolsos de palavras feias para a hora do recreio. Antes das férias, os adultos também lá iam, para encherem as malas de palavras cinzentas, de piadas estúpidas, que atiravam pela janela na auto-estrada, entre as sandes e o café, durante os engarrafamentos: Ó aselha, vai mas é plantar batatas! À face da Terra, a atmosfera era glacial. O Sol, que tem medo das grosserias e dos arraiais de pancada, recusava-se agora a brilhar. Lembrava-se de outros tempos, em que era acolhido de braços abertos: –– Está bom tempo! Que maravilha! Obrigada, amigo Sol… Oh, meu Deus, como gosto do Sol… Em vez disso, ouvia-se agora: –– Que calor horrível! Bolas! Kêkalôr! Então as nuvens invadiram o céu, e a terra mergulhou num período glacial. Toda a gente tinha frio. As pessoas recusavam-se a despir-se, já não faziam festas umas às outras, já não nasciam bebés. A Terra estava tão triste, sem flores nem palavras cor-de-rosa! De repente, nos engarrafamentos, as pessoas começaram a desdobrar os papelinhos cor-de-rosa: Faz favor de passar, Que tempo tão bonito, não acha?, Pode ir à minha frente, não tenho pressa nenhuma… Nos recreios, começaram a ouvir-se novamente risos simpáticos e palavras como És o meu melhor amigo, Claro que podes entrar no jogo… Em casa, as crianças voltaram a usar palavras cor-de-rosa: Obrigada, mamã, Por favor, Desculpa, não fiz de propósito… Nos aniversários, cantava-se alegremente e, nas festas da passagem do ano, formulava--se votos de felicidade e de saúde. O Sol voltou a brilhar e a deitar-se todas as noites na sua nuvem cor-de-rosa. E, juro-te, os vendedores de palavras cor-de-rosa começaram a fazer fortuna! Abriram- -se mesmo outras lojas especializadas em sorrisos, em suspiros de satisfação, em delicadeza, em cortesia, em civismo… Foi como mel no coração. Quanto às palavras cinzentas, decidiram, diante de tanta felicidade, desarvorar com quantas patas cinzentas e peludas tinham. E, quando alguma se lembrava de vir meter o nariz, garanto-vos que não ficava por muito tempo.
Tradução e adaptação Sophie Carquain Petites histoires pour devenir grand
O Azar dos TávoraNunca lhe acontecera uma coisa assim : saíra de casa sem levar um tostão no bolso e agora que começava a chover é que se lembrara que também não tinha levado guarda-chuva, e o pior é que não trazia dinheiro para táxi nem para guarda-chuva. Depois reparou que, mesmo que quisesse uma coisa ou outra, não poderia ter nenhuma delas porque o acaso da caminhada o levara para um sítio onde não passavam táxis nem havia lojas; e mesmo que tivesse levado dinheiro para uma coisa ou outra, e estivesse num lugar habitado, já passava das horas em que as lojas estão abertas e os táxis ainda passam. - Ó senhor! Faz favor, senhor! Sabe o caminho de volta para a cidade? O condutor puxou das rédeas, fazendo empinar o pescoço da mula, que se retesou num repente, parando o carro. - Vou para a cidade. Suba, que eu levo-o. Nem pensou duas vezes quando viu armado o toldo sobre o banco do condutor, a protegê-lo das bátegas de água que eram cada vez mais espessas. Por outro lado, o frio começava a apertar, e não tinha sequer uma camisola para o aconchegar. Sentou-se ao lado do homem que, com uma vergastada no dorso da mula, retomou o caminho. - Quem diria que se ia pôr um dia assim! O homem não deu troco. Olhava em frente, e puxou a gola do casaco para proteger o pescoço, grosso e atarracado. - Tem dinheiro? Oh diabo! Agora é que vinha a pergunta? De facto, já não se pode confiar na humanidade. Pensara que o homem se apiedara da sua situação, e o embarcara para o libertar de uma molha que, pelo dilúvio que caía, o iria deixar num pingo. Que lhe iria responder? Que saíra de casa sem pegar no porta-moedas? Que tinha sido roubado? Que tinha perdido a carteira? Todas estas hipóteses seriam verosímeis; mas não estava habituado a mentir, e se lhe dissesse uma destas coisas o cocheiro rir-se-ia dele. O homem olhou-o como se não tivesse entendido o que ele dizia. Felizmente, a chuva começara a abrandar; mais cinco minutos, e o céu daria tréguas, permitindo-lhe saltar para o chão e deixar tão incómoda companhia. O pior é que a mula corria cada vez mais; e começava a estranhar a demora que a viagem levava, dado que muito menos tempo fizera a pé desde a saída da cidade até ao lugarejo onde fora surpreendido pelo céu. Pareceu-lhe então que o carro abrandava; e não se enganou porque, decorrido um minuto, o condutor fez sinal: - Chó! Chó, mula! Não esperou muito, quando uma rica carruagem com as armas reais apareceu na direcção contrária; com um gesto brusco, o condutor fez com que a mula se atravessasse na estrada, tapando o caminho, o que obrigou os cavalos a empinarem-se, fazendo parar a carruagem. Mal assomou da portinhola a cabeça do passageiro, o homem puxou de uma pistola e desfechou-lhe um tiro que, por milagre, não fez mais do que furar-lhe o chapéu. Com o ruído da detonação, a mula assustou-se, voltando a abrir a passagem. O cocheiro real, então, aproveitou para livrar do perigo o seu precioso passageiro, ao mesmo tempo que dois escudeiros saltaram de trás do coche e imobilizaram o agressor, que nada fez para fugir, ao mesmo tempo que prendiam o hóspede que tivera a pouca sorte de pedir boleia. - Como te chamas, miserável? Ainda antes que ele pudesse dizer alguma coisa, o condutor gritou: - É o marquês de Távora, cavalheiros! Foi ele quem me deu a ordem de disparar contra o senhor D. José! Como num filme, começaram a correr-lhe pela cabeça as mais absurdas hipótese; mas o que era absurdo era o que estava para lhe acontecer: preso, levado sob escolta para o cárcere, onde seria submetido a interrogatórios que o fizeram confessar que era ele, de facto, o marquês de Távora, mesmo que não percebesse como é que, tendo saído de casa, no século XX, para um inocente passeio ao campo, fora parar ao século XVIII e, por fim, se visse no patíbulo, com os carrascos a partirem-lhe os ossos, antes que o garrotassem, só porque se esquecera da carteira e não encontrara nenhuma caixa multibanco para levantar dinheiro.
Nuno Júdice (Inédito)
Os dez anõezinhos da tia Verde-Água
Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água: - Ai, Tia! Vocemecê é que me podia valer nesta aflição. - Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem. E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manha se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, ponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu: logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez: - Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar. A velha respondeu-lhe: - Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos? - Ainda não; o que eu queria era vê-los. - Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que soo os dez anõezinhos. A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho. Conto Tradicional Português Recolha de Teófilo Braga
O suave Milagre
Nesse tempo Jesus ainda não saíra de Galileia, das margens do lago de Genezaré; mas a nova dos seus milagres chegara já a Sichem, cidade rica, entre vinhedos, no país de Samaria. Uma tarde um homem passara com os cabelos ao vento, dizendo que um novo rabi, um novo profeta, andava pelas verdes colinas que vão de Magdala a Cafarnaum, anunciando o advento do reino de Deus, e curando todos os males humanos. Enquanto descansava junto ao Poço de Jacob, o homem contou mais que o rabi, num campo ao pé de Cafarnaum, sarara o servo de um centurião romano, de longe, e só com murmurar suavemente uma palavra; e noutra tarde, tendo atravessado numa barca de Galileia para as terras dos Gerazenos, onde se fazia a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável, que lia na sinagoga. E como a gente em redor lhe perguntava se esse era o Messias, e que doçura havia nas suas palavras, o homem ergueu-se, apanhou o cajado, e sem sequer beber do poço onde bebera Jacob, desapareceu, com os cabelos ao vento, por entre as rochas, no caminho que levava a Betânia. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho do Hérmon, ficara refrescando as almas; e logo a terra pareceu menos dura, e todo o fardo pareceu menos pesado... Ora, em Sichem, vivia um velho chamado Obed, senhor de rebanhos, senhor de vinhas, de uma família pontifical, que, desde os antigos cultos de Israel, sacrificava no alto do monte Ebal. Mas um vento abrasador, esse vento de desolação que vem, a voz irada do Senhor, do fundo das terras de Assur, matara as melhores reses dos seus largos rebanhos; e, nas encostas, onde lhe tinham crescido mil pés alegres de vinha, negrejava agora só a esterilidade das urzes. Obed, com a cabeça escondida no manto, lamentava-se à beira dos caminhos. Depois ouvindo em Sichem falar do rabi de Galileia, que alimentava as multidões, e emendava todas as desgraças humanas, Obed, homem lido, pensou consigo que o rabi seria um desses feiticeiros que maravilhavam a Judeia, como Apolónio, o da voz de bronze, e o subtil Simão de Samaria. Esses, mesmo nas noites escuras, conversavam com as estrelas; e sabiam as palavras que afugentam de sobre as searas os moscardos negros, gerados no lodo do Egipto. Jesus, mais poderoso que Apolónio, mais subtil que Simão, sustaria a mortandade dos seus gados e faria reverdecer as suas vinhas... Obed chamou os servos, e ordenou-lhes que fossem buscar o rabi às cidades de Galileia. Os servos apertaram os cintos de couro - e largaram correndo para o norte, pela estrada das caravanas que conduz a Damasco. Uma tarde avistaram, sobre o poente vermelho, as neves do monte Hérmon. Depois o lago de Genezaré resplandeceu diante deles, espelhado, azul-celeste, e calmo na frescura da manhã: um bando lento de cegonhas brancas cortava o céu claro, voando para os lados de Safed; a cidade nova de Gamala tinha um doce brilho de mármore, entre as verduras; e a água, transparente e sem murmúrio, banhava os pés das ervas altas e dos aloendros em flor. Um pescador que ali desamarrava preguiçosamente a sua barca disse-lhes que o rabi deixara a Galileia, e partira com os discípulos para os lados de Galaad, para onde desce o Jordão. Os servos seguiram, correndo, sem repouso, até ao sítio onde o Jordão, mais baixo, tem um largo remanso, e dorme um instante imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Da entrada de uma cabana, feita de rama, um Essénio, coberto de peles de cabra, soturno e selvagem, gritou-lhes que Jesus, sozinho, se afastara para além. Mas aonde era além? O Essénio, com um gesto brusco, indicou vagamente as montanhas da Judeia, Engaddi, e as fronteiras roxas do reino de Asketh, onde se ergue, sinistra sobre o seu rochedo, a cidadela de Makaur. Mas debalde os servos arquejantes procuraram até ao país de Moab. Jesus não estava ali. Um dia, já na volta, um escriba, que recolhia a Jericó, passou por eles, montado na sua mula. Os servos de Obed rodearam-no, perguntando-lhe se encontrara um profeta de Galileia que fazia milagres. O homem da Lei bradou-lhes que nem havia profetas, nem havia milagres fora de Jerusalém, e que só Jeová era forte no seu Templo; e perseguiu-os ainda às pedradas, em nome do senhor de Israel. Os servos fugiram para Sichem. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus rebanhos morriam, as suas vinhas secavam - e a esse tempo crescia em Samaria, consolador e cheio de promessas divinas, o nome de Jesus de Galileia. Ora um centurião romano, Públio Sétimo, comandava então o forte que domina o vale por onde se vai a Cesareia e ao mar. Públio era homem próspero, e gozava os favores de Flaco, legado imperial da Síria. Mas, desde tempos, sua filha única, e infinitamente amada, definhava com um mal estranho, incompreensível mesmo aos esculápios e aos mágicos que ele mandara consultar a Sídon e a Tiro. Branca e triste como a lua, sem se queixar e sem falar a seu pai, deixava-se finar, sentada na esplanada do forte, sob um velório, olhando melancolicamente os longes azulados do mar de Tiro, por onde ela viera de Itália, numa galera, com soldados. Por vezes, ao seu lado, um legionário, de entre as ameias, apontava lentamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de asa serena no azul. A filha de Sétimo seguia um momento a ave torneando até bater morta sobre as rochas; depois, mais triste e mais pálida, continuava a olhar o mar. Então Sétimo, tendo ouvido destes feitiços do rabi, tão potente sobre os espíritos, que curava todos os males, destacou três decúrias de soldados a procurá-lo em todas as cidades da Decápola, na Pereia, e ao longo da costa até Áscalon. Os soldadas meteram os escudos dentro dos sacos de lona: e partiram, fazendo ressoar as sandálias ferradas sobre as lajes das três estradas romanas que se encruzam em Samaria. De noite as suas armas brilhavam no alto das colinas, entre a vermelhidão dos archotes. De dia penetravam nos casais, rebuscavam a espessura dos pomares; e as mulheres inquietas traziam-lhes figos, e malgas cheias de vinho de Safed, que eles bebiam, às mãos ambas e de um trago, sentados no chão, à sombra dos sicômoros. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Assim prosseguiram até Áscalon, não encontraram Jesus; e retrocederam ao longo da costa, enterrando as sandálias nas areias ardentes. Uma madrugada, junto a Cesareia, avistaram, sobre um fresco outeiro, um bosque de loureiros onde alvejava recolhidamente o frontão liso de um templo. Um velho de barbas brancas, vestido de linho alvo, esperava ali, grave e religiosamente, a aparição do Sol. Os soldados perguntaram-lhe, agitando os ramos de oliveira, se ele sabia de um profeta de Galileia que fazia milagres. O velho, sereno e sorrindo, disse-lhes que não havia profetas, nem havia milagres, e só Apolo Délfico conhecia o segredo das coisas. Então, devagar, com a cabeça baixa, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram ao forte de Samaria. E grande foi o desespero de Sétimo, porque sua filha morria, sem se queixar e sem falar a seu pai – e a fama de Jesus de Galileia ia subindo, alumiando toda a Samaria, como a aurora quando se levanta por trás do monte de Hérmon. Ora, junto a Sichem, num casebre, vivia então uma viuva desgraçada entre todas, que tinha um filho doente com as febres. O chão miserável não estava caiado, nem nele havia enxerga. Na lâmpada de barro vermelho secara o azeite. O grão faltava na arca: o ruído dormente do moinho doméstico cessara, e esta era, em Israel, a evidência cruel da infinita miséria. A pobre mãe, sentada a um canto, chorava; e, estendida sobre os seus joelhos, embrulhada em farrapos, pálida e tremendo toda, a criança pedia-lhe, numa voz débil como um suspiro, que lhe fosse chamar esse rabi de Galileia de quem ouvira falar junto ao Poço de Jacob, que amava as crianças, nutria as multidões, e curava todos os males humanos, com a carícia das suas mãos. E a mãe dizia, chorando: - Como queres tu, filho, que eu te deixe, e vá procurar o rabi à Galileia? Obed é rico e tem servos, eu vi-os passar, e debalde buscaram Jesus por areais e cidades, desde Chorazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, eu vi-os passar e perguntaram por Jesus sem o achar desde o Hébron até ao mar... Como queres tu que eu te deixe? Jesus está longe, a nossa dor está connosco. E sem dúvida o rabi, que lê nas sinagogas novas, não escuta as queixas de uma mãe de Samaria que só sabe ir orar, como outrora, no alto do monte Gerazim. A criança, com os olhos cerrados, pálida e como morta, murmurou o nome de Jesus. E a mãe dizia, chorando: - De que me serviria, filho, partir e ir procurá-lo? Longas são as estradas da Síria, curta é a piedade dos homens. Vendo-me tão pobre e tão só, os cães viriam ladrar-me às portas dos casais. Decerto Jesus morreu; e com ele morreu, uma vez mais, toda a esperança dos tristes. Pálida, e desfalecendo, a criança murmurou: - Mãe, eu queria ver Jesus de Galileia. E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: - Aqui estou.
In Eça de Queirós, Contos |
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